Que Me Ofereces na Tua Passagem?

Pegadas
Pegadas
Ainda muito jovem fazia grandes passeios a pé com o meu Avô. Era, sempre, após o almoço que Ele me convidava para tão agradável “hobby”. Eu, de tenra idade, podia ficar com os amiguinhos a brincar na areia ou às escondidas…. Não, ia com Ele á procura de, pegadas da Vida, testemunhos deixados por alguém nos caminhos da Vida. Para Ele tudo tinha ou era história, aventura, que conjugava na sua analítica visão.
Caminhadas que me satisfaziam pelos peculiares testemunhos do guia, seguia atento, ora desatento, aos desmembrados artefactos, sapatos, bolas, roupas, vidros, animais, sendo tantos os sinais por ali deixados. Para Ele eram testemunhos em lixo, na teórica oração; “velhos são os trapos”.
Falava-me dos Amigos já idos, dos conhecimentos guardados no seu subconsciente, novidades para quem só pensava em brincar. Em mim depositou os seus sentimentais pensamentos, fui o seu cofre da Vida. Por isto, hoje, recordo e pratico saudosamente, aqueles depoimentos, lições ainda hoje tidas em boa conta.

Tenho quem se prepara para, contrariamente á sua vontade, deixar este inferno.
Em boa rememoração, guardo todas a pegadas no Meu íntimo e não no coração. Afinal este músculo só tem serventia para bombear sangue, para gravação temos o subconsciente, lugar desconhecido por muitos, mas dele fazendo uso para recordar ou testemunhar quando Nos dá jeito.
Na maioria dos casos é cedo, outros nem chegaram a deslumbrar a beleza terrena, mal entram saem sem conhecimento das máquinas mal tratadas. É realidade deixada para, pós-trigésimo aniversário sendo, a idade da consciencialização do Ser.
Surpreendidos por estas desatenções, estão em combate dos males, resta-me confortá-los, tarefa de difícil execução. Caminhamos juntos até à infortunada separação, sendo a mesma sombra que nos acompanha a que nos separa. Eles, que estão na porta de partida, cerram-lhe fileiras na conquista de mais uns raios de luz, e a quem ainda este assombroso espectro não visitou, vão esses visitá-los. Propicia ocasião para Deles obter exemplares auscultações do sofrimento, lamento, cura e perdão. Na maioria, de uma conversão, por vezes, tardia. Então não é que só nestas circunstâncias evocamos o mais poderoso, para Dele advir milagrosa cura de todos os males? E uns anos mais de vida sem sofrimento? É hora de lembrarmos as pegadas da Nossa caminhada, é para isto que serve os males do corpo e da mente, não para vingarmos a sujidade do trilho mas para humanas reconciliações. Chegados a esta passagem, converte-se as bestas a bestiais, de coitados a santos terrenos. Até aqui tudo mal, porque ninguém quer estes desfechos.
Outros cedo partiram para infindável viagem, penso Eu, de volta ao Cosmo. A Eles resta-me a saudade de um dia os encontrar. Agora vivenciemos Todos os testemunhos, uns mais atentos que outros, acabamos Todos por igual modo.
Num destes dias alguém, entristecidamente, me murmurava de um Amigo, em comum, que está mal, tão mal que não se esperam melhores notícias, sobre Ele falamos e em Nós meditamos. No decorrer da conversa, superiorizamos as coisas boas, que passavam nas Nossas vidas, (ainda bem - pensei Eu). A vida é-nos muito doce, no respeitante a humanos relacionamentos, pela avaliação da conversa. Lamentamos sempre, quando em baixo andamos, criamos compaixões para Nosso consolo e quem nos ouve não quer falar dos seus males, assim vai o Nosso sofrer. Bem espremida a Nossa, reflectiva, conversa alegramo-nos por ainda cá andarmos juntos, e, com saúde, em partilha do bem e do “mal”.
Assim foi com o Meu Avô e assim é com os restantes.

Em fingido pensamento, dizemos sempre; “ não vale a pena andarmos aqui, a matarmo-nos [....], acabamos todos ali.....”, em eloquente realidade, porquê tudo isto? Para isto?
Aquando do desaparecimento da matéria, esquecemos o adeus, para o lugar do contínuo Viver, felizes por cá continuar, esquecemos o ali.
A Nossa vida tem este sentido, deixar pegadas para alguém as reutilizar, sejam más ou boas, contudo todas são recicláveis. Por vezes são fundas, ocas, impermeáveis, sem serventia alguma, profere-se maledicências de quem passa, sem nenhuma reflexão da sua utilidade, mais não fosse um exemplo, a não seguir, de uma pegada mais.
Na linha da partida somos Todos bons companheiros, de trapos vestimos novo, porque de maus bastou. Assim se fala nas redondezas de um corpo ferido de dor ou preparado para o infinito desaparecimento.
Desta forma falava o meu companheiro, da minha tenra idade, sempre com ironia e revolta sobre questões de acções humanas. Ele que não tolerava a hipocrisia, era realista e frio quando de doenças e mortes se tratava.
A acreditar em místicos filósofos, estará ele agora a rir-se do que escrevo, e eu agradecido pela sua partilha, ainda, não deixei de ser trapo, nem mau, somente um de muitos passageiros deste planeta que atento está à Tua passagem.

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