Surpreendentemente Interromperam-me a Leitura

Alternativo: comportamentos de grupos com várias tendências,que apelidamos de “gangs”.
Gangs

É comum encontrarmos,hoje,na quotidiana sociedade, comportamentos de grupos com várias tendências, umas mais que outras, que apelidamos de “gangs”.Escrevo sobre um desses protagonistas; os "gunas", (significado)

Associados há baixa classe social, desalinhados, bastante ruidosos, na maioria das vezes ameaçadores à restante comunidade, (…), no melhor podem surpreender, positivamente, interrompendo mesmo alguns rituais, como a leitura de um livro, (…).



Pobre-Vs-Rico (Ideia Relacionada)


Muito fica por dizer, destas modernas escolhas, da quotidiana sociedade. É propósito, não comparar os demais clãs, mas falar de um miúdo, “guna”, que fala da Mãe aos seus colegas, motivo pelo qual, surpreendentemente interrompeu a minha leitura. 

Foi num final dia de trabalho, de regresso a casa no metro, meu diário transporte, que há primeira paragem, fui excecionalmente interrompido, por um grupo de três rapazes e uma rapariga, “gunas”, aos berros, sem qualquer respeito pelos demais passageiros. “Guna” que se preze comporta-se desta forma; então, de normal comportamento, encostam-se a um canto e aí se deleitam em impróprios gestos e grosseiras conversas que, para além de ruidosas, as usam para marcar território. Nada que a sociedade não esteja habituada, para eles o termo respeito não existe, porém, num daqueles, inconvenientes diálogos, um me despertou. 

Um deles mostra o seu novo telemóvel, topo de gama, aos “manos”, (termo usado para se sentirem unidos), que admirados pela nova, o querem ver e ouvir o relato de como o adquiriu. 
Antes, reparo que se riem de um sujeito, com um chapéu tipo cowboy, um personagem que se destaca pela sua forma de vestir, mas nada que Nos retenha atenção, exceto a este tipo de juventude, que tudo lhes serve para incomodar. Nestes intermináveis minutos, não consegui ver a marca, porém, pela conversa, mesmo há minha frente, reparei que era um bom telemóvel, pelo menos melhor que o meu e de muitos que conheço.

-  Hei mano, tens um topo de gama! (Disseram os colegas).

- Ya mano, foi a minha cota que mo deu – (respondeu o dono do aparelho e por aqui continua.) - Sabes mano, eu até não lhe pedi nada, mesmo ela não trabalha e os gajos da Segurança Social disseram que já não tem direito a nada. Um dia, da semana passada, fui com ela ao Jumbo, (supermercado), e parei em frente há montra dos telemóveis, a minha cota ao ver-me perguntou-me se queira um. Tás a ver mano, mal ela me disse aquilo eu disse logo que sim!

- Mesmo mano, até eu dizia o mesmo, (respondeu um dos outros).

- Mostra aí, mano! (pediu a rapariga).

- Hei, que cena, olha é mesmo um espetáculo! Que sorte a tua, (coletiva apreciação).

- Ya mano conta lá, (insistiu o interessado).

- Tás a ver mano, entramos na loja e parei em frente desta máquina. A cota perguntou-me se era este que eu queria e claro que lhe disse que sim. Aí, mano, a velha disse que não ia dar, por ser muito caro. (não disse o preço, mas seria aparelho para mais de €300).

- Xiii mano que cena marada, (surpreende-se o ouvinte).

-Haa não teve cena, mano, sabes como resolvi a questão? Foi simples. A velha disse que não dava e daí saímos para as compras. Então eu fiquei assim, olha… 

(A mimica dele até teve piada. Para “guna”, a expressão era de um autêntico miúdo amuado, cabisbaixo, muito, mas muito triste, até me deu dó. Enfim…Neste pequeno teatro reparo, que não sou o único atento ao relato, outros também ouviam e com esta representação esboçaram-se envergonhados sorrisos).

- Hei mano só mesmo tu, (risos no grupo).

- És mesmo um farsola, (disse-o a rapariga).

Entretanto o miúdo cada vez mais entusiasmado, pelos colegas, continua o seu relato.

- Ya mano, quando sismo com uma coisa, consigo-a. Então se a cota disse que me dava um telemóvel novo, não ia aproveitar? Tais tolos!

- Ya mano, fizeste bem, (anuíram os restantes).

- E depois mano, como lhe deste volta? (perguntou o mais interessado).
- Assim continuei neste estado, até que a velha, ao ver-me, disse-me. Ho meu filhinho, não estejas assim por causa da tua escolha! Sabes se eu pudesse dava-to, mas não posso e tu sabes disso. E eu respondi-lhe, ya Mãe, não te preocupes com isso. Só escolhi aquele porque era mesmo aquele! Esquece Mãe, bota para a frente.

- És mesmo mentiroso, mano. Puseste a velha quase a chorar, por tua causa. (comentou o ouvinte no meio de risos, bom, gargalhadas).

- Então a velha pagou as compras e disse-me; anda comigo filho. Imagina tu mano, o que seria!

-Ya tou mesmo a ver o filme, foram á loja comprá-lo, certo?

- Ya mano, isso mesmo. Olha, acredita, até me arrepiei, claro que não imaginava que a velha me fosse dar este “menino”! Dá cá isso. (disse-o para a rapariga, que já estava com o aparelho à já algum tempo).

-Toma é mesmo um espetáculo, agora deixa-te roubar, mano. (desculpou-se a rapariga).

- Achas mesmo!

-Ho continua mas é, e depois? (reconheçamos que o nosso interesse, no desfecho da estória, era igual ao do ouvinte).

-Depois mano, foi assim: entramos na loja, eu calado como um rato, ouço a velha; filho dou-te este queres?

- E qual era?

-xii, mano que chaço, o pá era um mesmo chaço!

-E tu?

- Eu disse, tass bem Mãe, pode ser esse. (novamente gargalhadas gerais no grupo).

- És mesmo um palhaço, mano. (acrescentou a rapariga).

- Então a cota foi ao balcão para conversar com a gaja, enquanto eu parei novamente neste.    Acredita mano, tripei mesmo com ele.

- Sim mano, não é para menos!

- Então a cota virou-se para mim e disse; pronto meu filhinho, sempre é esse que vais levar.    Olha mano caiu-me tudo, o pá nem sei como te explicar, fiquei mesmo todo marado mano.

- Que cena mano…

-Ya mano, atirei-me à velha e beijei-a toda, ela até chorou!

- Ya mano, imagino a tua alegria. Tens uma cota fixe, mano. Tomara eu que a minha cota, fosse como a tua, mano.

- Ya mano, é mesmo, mas sabes mano, a minha cota dá-me tudo o que quero. Foi assim que ela me habitou desde pequeno. Habituou-me, agora claro mano, como estou habituado, a que ela me dê tudo, mesmo não podendo, ela dá-me. Ela só quer é ver-me feliz, mano. Também sou filho único! Claro mano o que queres! (um pequeno silêncio, entre o grupo).


- Ya mano, és mesmo um gajo cheio de sorte. (neste instante termina a minha viagem e abandono o veículo).

São estórias que se ouvem e exemplos que se retiram, de partes do dia, da quotidiana sociedade. Esta que testemunho, a faltar o palavreado mais forte, (atributo de gang), foi motivo para surpreendentemente interromperem-me a leitura. Até o homem, do chapéu à cowboy, se mostrou admirado com o final da estória. Com ela, eu e os restantes companheiros de viagem, nos deliciamos, não pelo reprovável comportamento ou vocábulo, à “guna”, mas pelo reconhecido reparo, de um miúdo, à educação recebida da Mãe. Por tudo de mal, que possam possuir, são miúdos que também sabem identificar correto e incorreto, dentro de uma sociedade, cada vez mais, órfã de valores.


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