Agora somos o instante, logo não o seremos.

agora somos sombra...
Agora somos sombra...
Agora somos corpos refletidos, logo não o seremos.

Foram anos a vê-lo ali, de cigarro na boca, a olhar para quem passava defronte da sua montra, com chuva ou sol, frio ou calor aquele pedaço de passeio era dele e dos interessados no material que vendia. Ali se manteve fiel ao negócio até ao dia da notícia... É simples...naquele passeio do meu quotidiano, de um dia para o outro, desapareceu a sombra que o ocupava…

Dos corpos saem negros perfis, nos espaços onde pousam, a luz desenha e divide-os em pequenas ou grandes sombras, de trás para a frente acompanham o solitário caminhar do Ser que, por vezes, de tão distraído que anda, nem dá conta da sua e de outras presentes silhuetas. Quando as olha se assusta, aterroriza ou maravilha-se dando conta do que agora somos, negros quadros saídos da luz, logo não o seremos.



Agora somos os criadores da vida, logo não o seremos.

Aquele que morreu, de tabuleiro no regaço, pensara eu que nada me dizia, era mais uma simples e desconhecida sombra, porém sinto agora o quão importante foi a sua presença nos momentos em que nos cumprimentávamos, faziam-me sentir vivo e não preparado para um qualquer instante. Deixou-me, naquele lugar agora vazio, o testemunho de alguém que pelo silêncio dizia tudo…

O Homem constrói momentos pelo poder do desejo … por este a vontade… dela a ação… e por fim testemunha a experiência criada de e para gerações. Nunca esqueçamos este movedor de energia do grupo, influenciador de rumos, na sua e na dos outros, a sombra faz presenças que resultam na história de cada Ser. Alheado deste seu poder alimenta-se do egoísmo, desdenho, ganância, consequentemente empobrece o processo criativo e se afasta do que agora somos, criadores da vida, logo não seremos.


Agora somos testemunhos de todos, logo não o seremos.

Em momentos da vida, corridos que têm sido, nos vêm à memória os feitos das sombras desaparecidas, histórias deixadas a fazerem a história de outras.

Hoje quando passo naquele passeio sinto uma única alteração, o desaparecimento da sombra que durante anos muitos quotidianos testemunhou, naquele lugar, quanto ao resto é quotidiana sociedade... No dia da notícia despoleta-me o interesse naquela personagem, que só lhe falava com breves e diários cumprimentos, fez cair em mim a singela verdade do instante; o homem calado mas atento, de um dia para o outro desaparece, tal sombra escondida nos olhares cegos. Nas presenças deixamos passos do que agora somos, testemunhos de todos, logo não o seremos.

Agora somos tudo, logo não o seremos.

Mas qual o porquê desta noticia ter remoído o meu consciente? Não foi mais que um mortal a deixar-nos! Pois nem eu sei do porquê, sei o que senti naquela hora de almoço, quando amigos me relataram o acontecido. Talvez pela forma como tudo aconteceu, de um dia para o outro…aconteceu. Não estava doente, nem sinais de alguma enfermidade, foi de repente para surpresa de todos, sentado no sofá, preparado para a janta, de tabuleiro no regaço olhava a TV, assim o encontrou o filho.


Sinto um vazio que durará até ao meu desaparecimento, também, já não tenho ali a sombra que me cumprimentava diariamente, mesmo sem falarmos grande coisa. Somos tudo nesta vida, criadores do nosso viver, testemunhos e testemunhados das nossas e das outras ações, somos reflexos do nosso perfil em convívio. Não estamos sós, a sombra connosco ocupa o caminho, mostra-nos o horizonte certo da Vida em qualquer momento, até lá, ficam os passos da nossa passagem, tal como os deste ficaram. Não há um momento certo para o negro perfil, acaba no exato momento, no lugar do instante, sempre que agora somos tudo o que queremos ser, logo não o seremos.

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